CENA SEM HISTÓRIA

dscf5818Olhou em seus olhos e imaginou sua intimidade. Como gostava das carícias, gemendo baixinho no deslize dos dedos. Como eles subiam por suas pernas, contornando o abdômen, resvalando em seus seios. A respiração ofegante se continha com a proximidade dos pêlos pubianos e se liberava com o desvio de caminho. Quando finalmente invadia aquela densidade, respirava em espasmos, sentindo o dedilhar entre os grandes lábios. Pressionava-os na junção do clitóris, lubrificando-o com o sulco da buceta. Achava-se no clímax, mas não estava nem próximo do êxtase. Era apenas um reconhecimento para libertar-se das amarras cotidianas.

O calor estremece seu corpo. Movimentos circulares liberam choques por sua pele, retrai suas pernas aprisionando-o dentro de si, transformando-se em sua intimidade selvagem. O desejo instintivo se aflora, desabrochando a sua fragilidade. Ele a conduz desarmada, domando seus movimentos. Penetra nas paredes encharcadas, deslizando suavemente em fluxo e refluxo. Segura suas coxas, domina a sua nuca, prende seus olhos e avança em sua privacidade. O sangue não se decide se pulsa na cabeça ou no sexo e ofegante, desfalece. Ela se levanta diante da sua indecisão, prende-o entre suas coxas e monta em seu vacilo. Prende-o com seu calor, rebolando com desejo. Domina seus olhos, segura sua nuca, avança em suas coxas e prende sua privacidade. Em segurança, fecha os olhos e explode em orgasmos. Em sua intimidade, ela confiou e foi confiada.

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ANVERSO

orgia

Engasgado e focado nos objetivos, respiro essa falta de ar. Do ar rarefeito que sou feito, entre os vazios de viver e sonhar. Da ansiedade em escrever, quase vira um poema que há muito abdiquei de buscar. Não nasci para criar versos e nem o inverso. Não cresci na métrica regrada, do compasso enervado. Aprendi a fugir da rima sem contar as palavras. Me desfiz das estrofes pareadas, dos assuntos em tempos fechados. Recriei-me em parágrafos inacabados, e agora, reticente, não quero mais andar na contra mão. Controverso, não quero andar na linha. Riscar por meandros em refluxo, no reuso absoluto de uma espiral infinita, de ansiedade, desejo e paixão. Preciso, desejo e quero mais. Quero mais que o improvável assalte minha agenda, quero mais que a loucura seqüestre meu relatório, quero mais que o prazer assassine meu trabalho, quero mais…

Quero mais que se foda, numa grande orgia de peles lisas e corpos suados, que o cheiro do sexo impregne minha roupa rasgada. Quero mais ser esmagado por fendas variadas, sem pêlos, peludas ou aparadas; de cabelos ruivos, loiros ou morenos. Viver entre brechas de espasmos e orifícios, para que tudo se acabe na putaria de orgasmos implodidos. Que o sêmen jorrado em encontro com o líquido expelido liberte o fruto do sentido, da liberdade, da fraternidade, da igualdade; entre sussurros abafados e contidos, que expressam a pureza da essência do animal abatido, selvagem e instintivo.

Viver em poemas é para os sádicos.

LACUNA EXPRESSIVA

IMAGEM_encruzilhadaTudo parece distante. As palavras foram escritas há muito tempo. Já não se reconhece mais em sua leitura. Enquanto tenta encontrar aquilo que o levou ao argumento, a sensação que o corrompia no momento da escrita, só conseguia ler o seu momento. Estava aprisionado em seu presente. Um presente de angústia sem uma definição exata. Apenas o sentimento de não pertencer que voltava a lhe cutucar. Já havia sentido isso antes. Nos momentos de lacuna expressiva. Podia jurar que seria fácil retomar o seu manifesto. Mas a expressão do presente é preocupada demais para entender o passado. Um passado incompreensível, um futuro imprevisível e um presente insignificante. Era tudo o que possuía. Em sua mente doentia, olhava negativamente o teclado balançar conforme sua cabeça. As letras em formação qwerty encaixavam em seus dedos, como se lhe mostrasse o caminho. Mas o problema não é o percurso. Sempre será de onde viemos e pra onde vamos. Um caminho qualquer um pode percorrer, mas prever a encruzilhada tornara-se impossível, se algum dia ela foi previsível. Mas a encarava com a força de seu Santo, benevolente da encruzilhada, guerreiro de ferro.

Política do Desejo

mascara

Um trago de realidade e desperta sozinho, sem nada a comentar. Não tem histórias, nem desabafos. Tudo amortizado pelo tempo, consumido pelos prazos, exaurido pelas metas, enferrujado pela máscara. Escondeu-se num novo ser, necessário a aquela situação. As gírias não caiam bem no ambiente, já não servia drinks com descontração. Agora, na bandeja, trazia apenas propostas e soluções. Propostas por algo melhor, ambientalmente correto, cercado de políticas. Vestia-se com a máscara politicamente incorreta, um pouco torta, faltando um pedaço. Não enxergava nada além daquele rosto plástico, frágil e indecoroso. Aprendeu que o riso era a alma do negócio. Apertava mãos entre um sorriso forçado, ria de palavras conflitantes e engolia seco a sua índole. O trabalho ingeria a sua veia artística, reduzindo suas ilusões em propostas, se é que algum dia a teve. Mas tudo voltava a pulsar dentro daquele quarto de hotel, entre tragos do cigarro que careta dispensa. Solitário, pensava em escolhas. Ainda não é o momento. Apaga o cigarro, arruma o travesseiro. Amanhã voltará a vestir a máscara, com a esperança de que a política não incinere seus desejos. 

CONVERSAS IRREAIS

violao 7

Estava sentado no ônibus, na poltrona da janela. Um rapaz com o violão na mão deu o sinal e se equilibrou à frente da catraca com todo seu peso. Cabelos enrolados e barba por fazer, era o típico moleque metido à artista. Pediu licença e sentou-se na poltrona do corredor. Evitou tirar a admiração de quem olhava além daquela inércia.

Ao mesmo tempo, acostumado ao desconcerto, quem estava na janela olhava de lado, curioso por aquela viola. Três pontos adiante e vinte giros na catraca depois, a vergonha cedeu ao encontro:

– Muita bagagem nessa viola?

– Uns dez anos de eterno aprendizado.

– E quem são seus professores?

– Craveiro e Cravinho, Rolando Boldrin, Santino O. Ferreira, Zé Lambique, Bandeira – Bandeirinha, Eugenio – Evaldo, Pavãozinho, Liminha, Capitão Furtado – Hélio Sindô, João Pitanga, Trio Catarinense, Nico Pinheiro, Brazão – Correinha, Adaldo A. Santos, Nhô Nico e tantos outros.

– Já pode iniciar seu projeto de mestrado com essa academia. E essa viola é tímida?

– Na verdade é ele e tem 7 cordas. Difícil ter o azar dos 7 cobres permanecerem calados.

– Posso ouvir o que eles têm a dizer?

De barba por fazer, como se não sentisse a inércia, despiu o violão exaltando sua beleza. Pediu licença para que pudesse copular com sua silhueta e dedilhou na maciez do carinho, vibrando gemidos nítidos:

“É que a viola fala alto no meu peito humano

E toda moda é um remédio pros meus desengano

É que a viola fala alto no meu peito, mano

E toda a mágoa é um mistério fora desse plano

Prá todo aqueles que só fala que eu não sei vivê

Chega lá em casa pruma visitinha

Que no verso e no reverso da vida inteirinha

Há de encontrar-me num cateretê

Há de encontrar-me num cateretê“*

No verso da cantoria, olhou pra fora daquela inércia: a cidade passava rapidamente, entre trancos e solavancos nos pontos da vida, enquanto os carros buzinavam estagnados. Olhou pra trás e lá estava a viola coberta de uma nudez que nunca teve. O pseudo violeiro segurava-a pelos braços com a firmeza de impedir que a ex mulher fosse embora. Estava sentado em outro assento, em duas poltronas que nunca se encontraram.

* (Rolando Boldrin)

Segundas Feiras ao Sol

Hoje em dia acordo na pressa e desperto ávido por desligar o despertador, com receio de que a cama volte a me abraçar. Corro contra o relógio, atravessando o trânsito que insiste em me bloquear. Chego afoito no lugar da minha nova produção e lembro-me da sua presença semanal na minha rotina. Saudades de ti, Segundas Feiras ao Sol. Tive que te abandonar para trilhar um novo caminho, decidi por um novo rumo em que você não era mais bem vinda. Deixei-a ali, para outros companheiros que possam desfrutar de sua companhia. Por muitas vezes foste meu ponto de apoio nas rotinas, meus ensejos degradados de blasfêmias. Não posso comparar as felicidades, pois não se pode medir o que é incomparável. Fui feliz em seus braços, em sua rede que embalava minhas crenças, em sua malha que aquecia meus sonhos. Agora, deixei meus devaneios para correr atrás da vida, com a esperança que um dia volte a sonhar com mais tranquilidade. Quantifiquei minhas partículas elementares, relativizei meus elementos moleculares e potencializei o meu núcleo atômico. Gerei a fusão das minhas contradições e implodi na fissão dos meus objetivos. Radiei o meu corpo conduzindo a expansão de meu buraco negro, orbitando em estabilidades radioativas. Inseri uma constante dimensionando a minha mecânica molecular. Agora, sou parte quantificada de todos os meus elementos, prevendo a energia despendida para uma fluidez infinita. Eu sou o trilho do meu conceito, operando a mecânica quântica da minha trajetória, que se combina através da anulação das possibilidades expelidas no vácuo. Diante do nada, eu sou tudo, tudo isso que eu possa vir a ser, através de suas carícias, Segundas Feiras ao Sol. Despeço-me de ti com a prerrogativa de que te encontrarei amanhã, porém este dia será longo, mas o tempo é relativo e o espaço está em expansão. Agora eu foco minha atenção para as Sexta Feiras Santas, que religiosamente esperarei o horário certo para sentar-se à mesa do bar, com a sensação de dever cumprido, com a esperança de usufruir de meus direitos, de poder me transformar em quem eu bem entender. Entendo que só nasci para servir se, por ventura, também for bem atendido. Atenda aos meus pedidos que em breve servirei o teu sacrifício. Caso sinta saudades, pode ligar, mas não garanto sempre te atenderei, pois a Sexta Feira Santa, só é Santa porque é exigente, caracterizada por um enorme sacrifício.

INSÔNIA IX

Abro e fecho os olhos. Está frio e não há sono. Existe um cansaço pulsante e uma mente impulsionada pelo café diário. Deitado, abro e fecho os olhos. Tudo que vejo é uma parede branca, como muitas folhas de meu caderno. Ele já perdeu a tradicional pressão exercida pelo rolar da caneta tingindo com fervura. Mudo de lado, abro e fecho os olhos. Uma estante repleta de livros já explorados: devorados com extrema rapidez, abandonados com repentino desdém. Empoeirados, suas páginas permanecem grudadas. Rolo pela cama procurando uma posição. Deito de costas e vejo a tela brilhar um filme que já perdi o enredo. Não adianta mais torcer pela protagonista, não entendo mais seus objetivos. Enclausurado, retraio aos meus, sob a pressão de dois felinos fluindo o sangue quente. Perdi-me na bagunça do meu quarto. Sumi entre as roupas da vida. E agora José? Separar as roupas sujas das limpas, aceitar os livros fechados, entender as folhas intactas e encarar as paredes brancas, de mais uma insônia mal resolvida. Entre futuros, presentes e passados, inexisto em linhas temporais. Afogo minha existência de bruços no travesseiro!