O dia nasceu cinza, apesar do sol que jazia na varanda. Um telefonema de luto para despertar a tristeza que consumia. Ele se foi de repente, sem tempos para despedidas. Como poderia se despedir de uma pessoa eternamente? Um batalhador em vida, um guerreiro no jogo. Jogava com seriedade e levava a vida jogando. Jogou o jogo da vida dedicado a transmitir sua alegria e, por vezes, esbanjar sua teimosia. Teimoso, não desistia nunca de viver. Pelos salões de dança, cruzando a avenida do samba, saiu pela tangente numa curva sinuosa. Não representava grandes perigos, mas a fragilidade humana é latente: até o mais bravo dos guerreiros vem a perecer. Sinto o cinza da manhã ensolarada despejar suas lágrimas pelas flores que te cobrem, pela madeira que te veste, pelo fogo que te pulveriza. Tuas cinzas se espalharão pelo mundo, assim como sua cisma empesteou nossos corações. Subiste para uma última reza, desceste ao som do último samba e tornaste a subir com as passistas para uma eterna jogatina!
Em memória de PAULO HEIDTMAN